sábado, 28 de maio de 2016

Oitava Dissonante

Oitava Dissonante



Não quero ser Olavo Bilac, nem Camões
Muito menos Bocage ou Gregório de Matos,
Por mera distração e sempre a ouvir canções
Faço versos, se podem ser assim chamados.
Não procuro formas, nem aliterações,
Ou vocábulos esdrúxulos ou hipérbatos
Palavras concatenam-se naturalmente
Num enlevo repentino de minha mente!
     

Fernando Person

São Paulo, 30 de março de 2012

Little Wings

“When I'm sad, she comes to me
with a thousand smiles.
She gives to me free.”
Jimi Hendrix



Sem você tudo é estranho:
As noites são frias
Os dias são vazios
E a tristeza não me abandona.

Sem você aqui comigo,
Deitada no meu peito
Com seus lindos cabelos,
Tudo parece desabar.

A casa bagunçada fica,
De fome eu quase morro...
Sem carinho e compreensão
Jogado na cama estou.

Mas é só você chegar
Sim, só você chegar,
Com seu alvo sorriso
E seus olhos estrelados,

Tudo de repente muda.
E você diz: “Está tudo bem!
Não haverá mais dor
Pegue na minha mão...

Venha, eu mostrarei a você
Tudo o que de mim posso dar:
Meu amor, minha companhia
Minha dedicação, meu carinho!

Venha, e voe comigo
Para longe daqui,
Para longe de tudo;
Não haverá mais tristeza...

Venha, não espere mais!”
E como um pássaro
Ando com o vento
Em seu perfumado seio.

E voo longas noites,
Dias e dias mil
Mas só em seus seios,
Somente neles, amor...

 Porém você sem mais parte
E tudo volta pior...
Não tranque a porta!
Eles podem esperar...

Fique, sim?!
Traga vida à minha!
Fique, eles vão esperar!
Não vá...

Eles vão esperar...
Fique!
Fique...
Sim?

Fernando Person

São Paulo, madrugada de 29 de agosto de 2012

Retrato de um Passageiro Paulistano

Retrato de um Passageiro Paulistano



Sentado na plataforma
Espero o trem passar;
São nove da noite
E eu só penso em poder deitar.

A multidão toda embolada
Tenta, em vão, no vagão entrar.
A chuva de hoje à tarde
Conseguiu os trilhos alagar.

Comi, bebi, esperei
E nada de trem passar.
E eu aqui sentado
Com o corpo quase a arriar.

Alguns vêm ao fundo da plataforma
Tentando, de certo, fumar.
O policial, porém, apoiado pela lei,
Não pensa nem sequer em deixar.

A morena de hoje de manhã
Nem percebe que estou a olhar;
De manhã ela só me espreitava
Mas agora só pensa em como chegar.

Tudo que eu quero é, enfim,
Ir para casa, tomar um banho, relaxar,
Para, então, no dia seguinte
Eu, exausto, ter que ir trabalhar.

E ainda existem pessoas que dizem
Que brasileiro só pensa em vadiar;
Ah, meus caros, que visão é essa?
Deixem-nos ao menos o sábado pra sambar!
                                                                                                           
Fernando Person
São Paulo, 03 de dezembro de 2009

(escrito na estação Pinheiros)

Que todos saibam!

Que todos saibam:
Sobre tudo que disse desdigo o que não foi dito!
Sobre tudo que penso repenso e concordo comigo!

Ora, meu caro, não me venha com esse papo furado!
Os outros têm culpa por terem nascido?
Você tem culpa por ter vindo?

Ah, João Cabral, como sois claro!
No meio das adversidades da vida
O fio dessa mesma, ainda assim, se desfia!

E enquanto uns alcaguetam e enriquecem,
Em meio à lama e ao sangue jorrado ao chão,
Outros vivem uma vida sofrida e à vista!

Ser esquerda ou direita?
Ser direita ou esquerda?
Esquerda-direita; direita-esquerda.

Num ziguezague sem fim caminha
Aquele que se diz centrista;
É um socialista-neoliberal!

No seio familiar o reflexo da sociedade:
Hierarquia, hipocrisia, higiene social.
Quão grandes nossos filhos são!

 Enolicamente, enfim, recapitulo o que afirmara:
Desdigo o penso e repenso o que digo,
Afinal, meu caro, sou não mais que um enorme fanfarrão!

Fernando Person

Barueri, 08 de dezembro de 2009

Desabafo

Desabafo

“No sun coming through my windows
I feel like I´m living at the bottom of a grave
I wish you ´d hurry up and rescue me
So I can be on my mis´rable way…”
Jimi Hendrix

Alegre, dizia o jovem num tom de orador:
“Viver é um caminho que leva
A um lugar cheio de alegria, amor e paz
À minha ninfa Helena sentada em seu trono
Repleto de ouro, prata e bronze!”
Ah, meu caro, certamente essa não é minha Troia!

Amigo, desculpe, minha vida é real, é vivida:
Tem poeira, tem sujeira, tem cimento
E dor e raiva e angústia e pobreza!
Tem cansaço, tem rotina, tem a porra do
Fedor no ônibus abarrotado de gente
Que vive (vivem?) como eu!

E todos parecem sonâmbulos...
E todos são pragmáticos!
Todos a ressoar a mesma nota
(Sempre a mesmíssima nota!)
Do automatismo desenfreado que nos faz viver
Na mais pura sinergia, no mais singelo dever!

Há horas não saio da mesma nota:
Dó... Dó... Dó... Dó... Dó...  
Há dias, meses e anos:
Dó... Dó... Dó... Dó... Dó...
O único sentimento que tenho:
Dó... Dó... Dó... Dó... Dó...

Fernando Person

São Paulo, 17 de agosto de 2012

Adeus

Adeus

“I choose no face to look at, choose no way.”
Caetano Veloso

Adeus.
Sim, adeus.
Eu sou aquele que poderia ser e não foi!
E quão dessemelhante sou do que fui...
Felizes são aqueles cuja casca ainda está verde!

Vou-me embora, Mãe,
Cuide dela, meu Pai.
Irmão, fique com meu violão.
Amigos, peguem o que quiserem,
Daqui parto sem nada levar.

Deixo, sim, uma chaga nesse mundo;
Uma mistura já conhecida de tristeza,
De náusea,
E de dor.
Mas não tomem posse disso, por favor!

Vou-me, enfim, para não voltar.
Juntos, mulher, estaremos a muitas,
Muitas, muitas léguas daqui...
Quem sabe veremos outros céus?
Quem sabe?

Quem sabe, afinal,
a deus?

Fernando Person

Barueri, madrugada de 28 de março de 2010

Sempre igual

Sempre igual

Todos meus dias não são mais
Do que meros tristes dias:
Todos iguais.

Acordo apressado.
Meu coração a pulular
Anuncia um novo dia.

Saio de casa.
Um fio de esperança
Incendeia minha alma.

Caminho curvado.
Suporto um peso em minhas costas
Que nem sei por que lá está.

O tempo passa.
Junto, meu ar juvenil se esvai
Com as constantes dores no peito.

Sofro de tarde.
Meu sangue jorra a cada segundo
Em que agoniza o arrebol.

Anoitece.
E adormeço com a certeza de que amanhã
Não será mais do que um mero triste dia.

Sempre igual...

Fernando Person
Barueri, 16 de janeiro de 2008

Rabiscos

Rabiscos

Sentada numa mesa de bar
Você me olha como quem nada quer.
Eu, gentil, retribuo com um olhar
De quem tudo deseja!

Nossos olhos não se separam.
Você, cheia de si, faz um quê...
Mexe as madeixas, mordisca a boca,
Me espreita a sorrir.

Respondo prontamente!
Aflito, porém, me lanço
Na esperança de ter seu
Corpo colado ao meu.

Confusa, você diz e desdiz.
Seu ímpeto antes desvanecido
Sem mais desperta, se valoriza,
Com seu olhar incessante aos meus lábios.

Sua estranha dança parece
 Meu corpo querer evitar.
Mas seus falsetes sem fim
Denunciam sua rendição.

Loucos rabiscos seus desfilam
Em meu corpo já fustigado.
Alvos caminhos, enfim, de mim partem
Ansiosos para você alcançar...

Sentada num quarto à meia luz
Você me olha como quem nada mais quer.
E eu, satisfeito, retribuo com um olhar
De quem já tudo tem.

Fernando Person

Em algum momento de 2010

A um Pai

A um Pai

Quando criança não entendia porque ias à casa dela.
Durante semanas procuravas um meio de fugir
Comigo, com flores nas mãos e com a barba feita.
Sempre perfumado, enfim, ias.

Faz tempo, Pai, é verdade.
Mas queria saber o que fazias naquele casarão
Enquanto estava eu à espera de ti...
Por que sempre brigavas com aquela mulher?

E, a despeito do que pensava, saías feliz de lá.
Sim, andavas pela avenida alegre e cheio de si!
Mas era apenas pisar em nossa casa e – pronto –
Brigavas com mamãe ou recolhia-te num canto qualquer.

Hoje Pai, mulher feita, compreendo todos
Os motivos de mamãe ter te abandonado.
Crê, Pai, ela nunca mais falou de ti...
E depois de toda briga, de todo choro, de todo engodo
Pergunto, apenas: Pai, por quê?


Fernando Person

Barueri, 10 de janeiro de 2008

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Perplexo

Perplexo

Dentro de mim
Um desassossego prevalece.
Simplesmente não sei o que fazer
E muito menos o que dizer.

Se somos antíteses do pensamento,
Visões paradoxais,
Amalgamadas pelo acaso pueril,
Como sem mais há onde não havia?

Se nos seus deslizes imperceptíveis
É exposto o que no âmago,
Sufocado, é difícil esconder,
Diga-me como poderia eu entender-lhe?

E, enfim, o que sobra de mim
Nesse calidoscópio forjado por nós
Não é mais que uma saudade sincera
Amargada em meu coração...

E agora, mulher, que não paro de pensar em você?


Fernando Person

São Paulo, 01 de fevereiro de 2010

Vandré

Vandré

Ao léu, sozinho, caminha o velho
Na esperança de um dia voltar
Há tempo aos momentos que lhe
Foram tão vividos...

Recluso, pouco diz o homem;
Por vezes, sem nexo, murmura sons,
Suspira sofregamente e se acovarda
Com o porvir que, a se revelar, insiste.

As vozes e liras e flores de outrora,
Estranhamente amalgamadas
A tambores, marchas, estampidos e lamúrias,
Inda lhe cantam perfumes desvanecidos.

Anos de luta lhe custam, em seu âmago,
Um fardo de sangue pungido à revelia.
Mas ludibriado, quem sabe, por si mesmo
Seus pulmões enche a cantar Fabianas!

Se esperar não é saber por que esperas tanto?
Por que te arrastas dia a dia meio trôpego,
Estorvado, fustigado, temente e tributável
À espera de um passado luzente?

Por que não contas tudo?
Por que não dizes a verdade?
Por que não olhas nos meus olhos?
Por quê?

Fernando Person

São Paulo, 17 de agosto de 2012

Ficarás tu?

Eu hei de crer que,
Mesmo vernalizada minha´lma,
Um dia florescerá em mim a paz.

E, nesse desejado momento,
Quero-te ao meu lado.
Ficarás tu?


Fernando Person
(entre 2010 e 2011)

Verdade

“Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta...”
(Paulo Pontes & Chico Buarque)

Quando o céu escureceu e o sol se apagou
Nada dizia que de fato partirias.
Parecia apenas um vazio súbito
Que lentamente invadia o dia a dia.

A cada instante que teimava em passar
O que era presente se tornou raro,
O que era escasso virou um vislumbre,
O que mantinha vivo o pensamento, um sonho.

Negros, os rostos expressavam apenas dor.
Não havia jovens embriagados caminhando ao léu,
Não havia o simples rastro de vozes ecoando nas ruas.
O amor, egoísta, expulsava os que diferente amavam.

Existia, sim, um vulto estranho em casa esquina:
Sempre a mesma sensação medonha,
A todo o momento os mesmos gemidos padecidos,
Sempre o som do réquiem em tom menor.

Retornaste, finalmente, muitos e muitos anos depois
Revolvendo os brios daqueles que um dia
Tanto esperaram aflitos por ti...
Contudo, como destilar o que a memória clama?

Não queremos inquisição, não desejamos ódio.
Pedimos, senhores, que o céu de tantas famílias
Volte a ter um pincel, um raio, uma réstia de luz;
Exigimos a mais ilustre Verdade, tão somente.

Fernando Person 

São Paulo, 21 de março de 2012

Poema concreto

Assim foi meu último dia de lavoro:
Uma ansiedade em minha alma,
Um certo receio do futuro,
E, pela única vez, o prazer do labor criativo.

Minhas mãos recobertas de terra denunciam o crime;
Hoje eu assassinei quarenta vegetais que insistem
Em desfiar aquele mesmo fio que vida ainda fabrica,
Ainda que à toa.

E olha que já perdi a conta de quantos matei...
É simples: o gênero humano, imerso na sua mediocridade,
Pensa que pode superar os revezes da existência.
Este ser, então, usurpa de tudo como se fosse seu.

Daí modifica o que fora criado, casualmente ou não.
Sim, enche de excrementos o próprio meio em que vive,
Extingue aqueles que seriam seus reles servos,
Produz, enfim, tosse, sufoco, ardor, cânceres e morte.

Ah, Homo incipiente, quão sádico és!
Faz-me assassinar singelas criaturas auto-suficientes
Para corrigir o engano que é tua autonomia!
Ah, Homo decadente! Ah, Homo insipiente!

Não, poeta baiano, não diga mais nada!
Eu sei: we´re not that strong, my Lord...
Sim, já aprendi: it´s a long, long, long,
Very long, too long and winding way...

Fernando Person

São Paulo, 30 de março de 2010

Perguntaram-me

Perguntaram-me certa vez,
Indiscretamente:
- Por que está com ela?
Justamente você!

Incrédulo, fiz-me desentendido;
Às vezes é bom não ceder tantos
Créditos à indagação alheia.
O sujeito, porém, insistia:

- Oras! Você que não é belo,
Não é esportista,
Não é sapiente,
Não é responsável.

- Você que é desengonçado,
Que é desleixado,
Que é mal pagador,
Como com ela está?

................................................................
Como alguém atira na minha face
Verdades tão dolorosamente
Despidas de rodeios e pudor?
Refleti calmamente, no entanto.
Olhei-o como quem se mira no espelho e disse:
- Talvez eu a faça feliz assim.
Sim, talvez!

- Talvez eu a entenda tão bem
Que basta fitá-la para
Saber que há algo errado,
Se há algo a incomodando.

- Talvez eu a compreenda tanto
Que nesses momentos eu faça
Uma piada ou uma brincadeira tola
Só para arrancar um sorriso trigueiro.

- Talvez ela se sinta bem comigo
Justamente porque ela percebe
Que minha presença é importante,
Que certamente ela pode confiar.

- Talvez um abraço apertado surja
Pois eu sei dos caminhos de sua terra.
Eu sei e sempre saberei onde
Ela guarda seus segredos mais profundos...

O sujeito não mais indagou nada;
Convencido, quem sabe, resignou-se.
E as angústias que em mim estavam
Ecoaram através do azul celeste....

Fernando Person

Barueri, madrugada de 12 de junho de 2010

O meu amor

O meu amor não é espiritual
Não é amor para todo o sempre.
Antes de tudo ele é carnal,
Súbito, efêmero e urgente.

O meu amor não precisa mostrar
A terceiros que se faz presente.
E muito menos declara que está a amar.
Ele se cala a dois, com corpos rentes.

O meu amor mente, é malandro.
Diz “te amo” por obrigação,
Para uma simples felação.
 Não é divino, mas erra – é humano.

O meu amor é singelo; não ama.
Nem é romântico, nem é ilusão.
O meu amor é amor-cama
Com nosso suor no colchão.

O meu amor é sujo e vil.
Roça, bate, geme e sangra
E depois não fala nem um piu.
Não diz sequer nem mais um piu...

Fernando Person

(Barueri, 01 de outubro de 2008)