sexta-feira, 27 de maio de 2016

Verdade

“Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta...”
(Paulo Pontes & Chico Buarque)

Quando o céu escureceu e o sol se apagou
Nada dizia que de fato partirias.
Parecia apenas um vazio súbito
Que lentamente invadia o dia a dia.

A cada instante que teimava em passar
O que era presente se tornou raro,
O que era escasso virou um vislumbre,
O que mantinha vivo o pensamento, um sonho.

Negros, os rostos expressavam apenas dor.
Não havia jovens embriagados caminhando ao léu,
Não havia o simples rastro de vozes ecoando nas ruas.
O amor, egoísta, expulsava os que diferente amavam.

Existia, sim, um vulto estranho em casa esquina:
Sempre a mesma sensação medonha,
A todo o momento os mesmos gemidos padecidos,
Sempre o som do réquiem em tom menor.

Retornaste, finalmente, muitos e muitos anos depois
Revolvendo os brios daqueles que um dia
Tanto esperaram aflitos por ti...
Contudo, como destilar o que a memória clama?

Não queremos inquisição, não desejamos ódio.
Pedimos, senhores, que o céu de tantas famílias
Volte a ter um pincel, um raio, uma réstia de luz;
Exigimos a mais ilustre Verdade, tão somente.

Fernando Person 

São Paulo, 21 de março de 2012

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