sexta-feira, 27 de maio de 2016

Perguntaram-me

Perguntaram-me certa vez,
Indiscretamente:
- Por que está com ela?
Justamente você!

Incrédulo, fiz-me desentendido;
Às vezes é bom não ceder tantos
Créditos à indagação alheia.
O sujeito, porém, insistia:

- Oras! Você que não é belo,
Não é esportista,
Não é sapiente,
Não é responsável.

- Você que é desengonçado,
Que é desleixado,
Que é mal pagador,
Como com ela está?

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Como alguém atira na minha face
Verdades tão dolorosamente
Despidas de rodeios e pudor?
Refleti calmamente, no entanto.
Olhei-o como quem se mira no espelho e disse:
- Talvez eu a faça feliz assim.
Sim, talvez!

- Talvez eu a entenda tão bem
Que basta fitá-la para
Saber que há algo errado,
Se há algo a incomodando.

- Talvez eu a compreenda tanto
Que nesses momentos eu faça
Uma piada ou uma brincadeira tola
Só para arrancar um sorriso trigueiro.

- Talvez ela se sinta bem comigo
Justamente porque ela percebe
Que minha presença é importante,
Que certamente ela pode confiar.

- Talvez um abraço apertado surja
Pois eu sei dos caminhos de sua terra.
Eu sei e sempre saberei onde
Ela guarda seus segredos mais profundos...

O sujeito não mais indagou nada;
Convencido, quem sabe, resignou-se.
E as angústias que em mim estavam
Ecoaram através do azul celeste....

Fernando Person

Barueri, madrugada de 12 de junho de 2010

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