sexta-feira, 27 de maio de 2016

Poema concreto

Assim foi meu último dia de lavoro:
Uma ansiedade em minha alma,
Um certo receio do futuro,
E, pela única vez, o prazer do labor criativo.

Minhas mãos recobertas de terra denunciam o crime;
Hoje eu assassinei quarenta vegetais que insistem
Em desfiar aquele mesmo fio que vida ainda fabrica,
Ainda que à toa.

E olha que já perdi a conta de quantos matei...
É simples: o gênero humano, imerso na sua mediocridade,
Pensa que pode superar os revezes da existência.
Este ser, então, usurpa de tudo como se fosse seu.

Daí modifica o que fora criado, casualmente ou não.
Sim, enche de excrementos o próprio meio em que vive,
Extingue aqueles que seriam seus reles servos,
Produz, enfim, tosse, sufoco, ardor, cânceres e morte.

Ah, Homo incipiente, quão sádico és!
Faz-me assassinar singelas criaturas auto-suficientes
Para corrigir o engano que é tua autonomia!
Ah, Homo decadente! Ah, Homo insipiente!

Não, poeta baiano, não diga mais nada!
Eu sei: we´re not that strong, my Lord...
Sim, já aprendi: it´s a long, long, long,
Very long, too long and winding way...

Fernando Person

São Paulo, 30 de março de 2010

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